Imagens de computadores em mesas impecavelmente arrumadas, ou em sofás alinhados preenchem os feeds das Redes Sociais (eu sei esta também…). Parece que o teletrabalho foi a melhor coisa que aconteceu…

Outras imagens de famílias sorridentes a ajudar os filhos nos trabalhos de casa colocam a pressão social de que tudo está alinhado.

Mas pode não ser o seu caso. E o meu.

Eu acredito que o teletrabalho vai ganhar espaço nas formas de colaboração no futuro. Mas cada caso é um caso e neste momento auto avaliar este tipo de trabalho impõe-se com uma grande dose de relatividade. Mas é um exercício que pode ser muito útil.

Fez-se em poucos dias, o que iria levar anos.

 

Porque é que para uns pode estar a ser frustrante e para outros não… Como auto-avaliar o teletrabalho?

 

1 – Estilo de vida – um jovem de 30 anos, solteiro, que já vive em ambiente colaborativo remoto, encara esta fase como uma extensão do seu dia-a-dia. Uma família com 2 filhos até 10 anos que sempre trabalharam presencialmente e que trouxeram os PCs do trabalho à pressa, encaram esta fase totalmente diferente. Jogar os pratos de ajudar a estudar, ter um chefe à distância que espera que a produtividade seja igual, sem processos e a distrair os míudos, não é teletrabalho. É desenrasque, e pode ser frustrante;

2 – Processos da Organização estruturados para teletrabalho – como já foi dito aqui e em muitos artigos e exposições, levar um PC para casa e ter Internet não é suficiente: que tarefas podemos desempenhar, quais as áreas impactadas, qual o fluxo, como resolver situações de não acesso, como comunicar intra e entre equipas, entre outros aspetos.

Nas pessoas que “entraram” recentemente neste sistema com quem falo, noto muita indefinição.

É normal.

3 – Qualidade das chefias – Podemos ter o processo montado, condições logísticas e de hardware, e até suporte para as crianças, ou nem ter crianças, mas falta a qualidade na liderança.

Falta de comunicação, emails confusos e agressivos ou mal redigidos, ausência de respostas, falta de espírito motivador, exigências irrazoáveis (afinal sabem onde estamos), tornam este sistema um verdadeiro pesadelo;

4 – Qualidade e perfil dos colaboradores para o teletrabalho– Raramente se fala, é quase tabu, mas nem todos somos bons.

E em teletrabalho, temos o território ideal para procrastinar, para “chutar para canto” e se aliarmos aos pontos anteriores, toda a organização se vai ressentir, criando nós em processos ou em pedidos.

5  – Objetivos mensuráveis – Parece óbvio, mas os objetivos devem ser na medida do possível mensuráveis.

Devem continuar a existir indicadores, em tempos razoáveis e definidos, sob pena de andarmos todos à deriva.

6 – Diferentes ritmos de trabalhos nas empresas – A maior parte das empresas não está a laborar a 100%, algumas nem a 50%, outras perto do zero.

Ora isto não é o cenário habitual de teletrabalho. Seria de pensar que mais tempo daria para fazer mais. Não é obrigatoriamente assim.

Conclusão possível:

Esteja descansado/a. Não há aqui pontuações de 1 a 10, há uma reflexão.

Esta é uma fase intensa, de ameaças e oportunidades.

E cada caso é um caso como vimos. O espaço que temos, os horários que assumimos, são mais alguns pontos a considerar. Temos a motivação, a ansiedade, a falta de tarefas, e por aí fora.

Não nos frustremos numa má fase e não olhemos para este modelo como a salvação.

Vai depender agora e sempre da capacidade das Organizações e pessoas.

“Meter” uma economia inteira em teletrabalho e dizer “está tudo bem” é uma perigosa utopia. Vale a pena auto-avaliar o teletrabalho de uma forma relativa mas séria, casuística e contextualizada.

Até (muito) breve.

PS Artigo escrito por um adepto do teletrabalho, com o filho de 10 anos em modo trabalhos de casa em voz alta 🙂