Confissões de um micro empresário no período de quarentena.

Olá,

Eu sou o Nuno, um micro-empresário. Sim, aquela classe que na frase “exploradores dos trabalhadores que se aproveitam para despedir e retirar direitos…” sou dos exploradores. Aquela classe que normalmente é associada a oportunismo, à procura do lucro a todo o custo, e por aí adiante.

Há 3 semanas a minha empresa deixou de ter trabalhos. 100% de queda em 4 dias. Pumba. Toma lá oportunista, que é bem feito.

Mas não chorem, não é sobre a queda de trabalho que vos vou falar.

De um momento para o outro, o meu filho que está na primária vem para casa, a minha esposa entra em teletrabalho, eu tenho que reinventar um negócio e manter/motivar o meu colega, gerir as ansiedades dos meus pais. E manter-me cool.

E pagar contas e impostos.

Como não sou um explorado de um trabalhador, não há regime prático para mim. Também não tenho trabalho não é? Toma oportunista, capitalista de uma figa.

As ideias também surgem nas crises. E tenho tido bastantes.

Entre os trabalhos da escola (que felizmente não são muitos), a gestão de refeições, e de compras cirúrgicas, de tarefas que quero desenvolver, do limite mental que estar fechado acarreta.

Não vou ter palmas à minha espera. Poucos micro-empresários terão. Imersos no seu dia-a-dia, muitos com as contas a dar apenas para pagar despesas. A esses as minhas silenciosas palmas. Sabem, muitos micro-empresários, eu incluído, são “ex-trabalhadores”. Sabemos o que custa aturar outro, e muitos criaram a partir do zero sem bases. Fizeram-nas. Uns falharam, outros não, uns hão-de cair, outros não.

A lei da natureza traduz-se muito bem nas micro-empresas.

Mas sou humano. Leio os 100 conselhos para manter o seu filho ocupado sem recorrer à tecnologia e recrimino-me.

Eu não consigo.

Eu uso a tecnologia, deixo jogar tablet, eu também gosto. Estou de quarentena, como todos, e sou apelidado de oportunista, um pai que cede ao facilitismo, e outros epítetos.

Em cada manhã que acordo só de custos fixos são mais de 100€.

Sim, a minha empresa é pequena, foi assim que quis para uma eventual pandemia com nome infeliz de cerveja. Estou a brincar, como venho da área financeira tenho a panca da poupança.

Eu não vou receber 66%, não vou fazer layoff, vou receber 0.

Vou deixar o tempo passar e tentar reinventar-me.

E até estou à vontade porque já tratava o digital por vossemecê (aposto que não viam há anos esta palavra escrita, mas eu não sou assim tão íntimo).

Muitos vão ter que começar do zero se querem fazer algo até isto tudo passar.

Porque vai passar. Para nós não há ses.

Estas confissões não são para terem pena. Quem as tem e muitas são as galinhas.

É apenas para terem uma leitura do outro lado. Do lado dos que olham para o espelho para encontrarem culpados.

Do lado dos que têm que se auto motivar e motivar os outros.

Do lado dos que caem sempre no mesmo saco, sejam bons ou maus, do lado dos que vão manter o barco a navegar e que na retoma vão estar por cá.

The bloody bastards…