Esta opinião é diferente. É menos consensual mas não menos necessária.

A maioria da população está neste momento resguardada, com o dia-a-dia muito limitado. As classes profissionais da saúde estão na linha da frente, louvamos e com toda a razão. É exemplar.

Mas não são as únicas classes. Algumas menos faladas são tão importantes.

Em meados dos anos 70 a recolha de lixo em Nova Iorque fez greve. Durante largos dias, as ruas foram invadidas por detritos, em poucos dias foi o caos.

Por causa da recolha do lixo, algo que damos como certo. Eles são importantes para o nosso dia-a-dia. (pode saber mais aqui)

Acabo este longo parágrafo não esquecendo outras classes: repositores, lojistas, donos de pequenos negócios que se viram estrangulados e que não estão a ver o futuro risonho.

Se algo esta crise trouxe é que TODOS somos relevantes para a sociedade.

Classe política incluída. Quem está na linha da frente dos decisores, além de estar mais sujeito a ser contagiado e a contagiar (vejam-se os últimos casos), tem que decidir com milhões de opiniões.

Diz-se “estão lá para isso”. Estão e não estão.

O que temos é comparado com uma declaração de guerra, onde um inimigo nos ameaça e temos de decidir como lutar.

Mas ao contrário de uma guerra, não há manuais que digam como agir. Bill Gates, agora muito citado, já previa. Pois, mas Bill Gates, além de ser um dos homens mais inteligentes do planeta, dedica-se às doenças desde há largos anos. Só faz isto.

De resto, no Google “como combater uma pandemia” retorna artigos recentes e até fake news.

Eu não imagino o que é gerir um cenário destes e arrisco-me a dizer que poucos de nós imaginam.

Todas as palavras, gestos são escrutinados por uma Opinião Pública que tem medo e está revoltada. De noite, nas poucas horas que dormem, números de infetados, mortos, e caos na economia desfilam nos sonhos.

Alguns de nós passados alguns dias em casa, já perderam a paciência, a compostura, já bufaram…

Quem lidera não o pode fazer, não pode fechar-se em casa, e se calhar alguns deles também não estão com a família há largos dias ou semanas.

A nossa classe política tem sabido ultrapassar as divergências do dia-a-dia, salvo excepções, em busca de soluções comuns.

Muitos de nós não perceberão por exemplo porque é que as medidas na Economia não são mais fortes, de apoio e incentivo.

Caramba, ajudaram os bancos não foi?

A Economia é muito mais débil, e as almofadas financeiras são muito menos fofas que todos gostaríamos que fossem.

Sem aceder a números e apenas a percepções, diria que em circunstâncias normais, muitas das nossas empresas não duram 3 meses sem receita.

São empresas de subsistência, já endividadas, ou que se descapitalizaram em investimentos ou simplesmente gastos de vaidade. Se nos queixamos dos políticos, olhemos para as empresas.

Também têm muito boa gente, outra menos boa, temos capacidade mas muita impreparação para choques. Muitos foram empresários à força, por situações de desemprego.

A injeção de dinheiro na Economia, não será uma medida económica mas social, para tentar evitar o descalabro do desemprego. Mas até aí há poucos pontos de comparação: esta crise não é financeira, não é de bens, não é de petróleo, ou de dívida, não é de guerra, é algo completamente novo.

Não vos chateio mais com estas considerações.

Num artigo que vale a pena ler, o presidente do Câmara do Porto, Rui Moreira, faz um exercício sobre o que vem aí. Pode ler aqui.

Nenhum de nós poderá saber se terá razão nas previsões, mas faz muito bem em arriscá-las. Nós precisamos de ter cenários de futuro. É aliás a capacidade de criar cenários no futuro mais distante, que nos diferencia dos animais. Isso e a colaboração de largos grupos, como estamos a fazer agora.

E não é apenas neste artigo que Rui Moreira se destaca.

Em poucos dias, tomou as rédeas de um conjunto de decisões que viriam a ser feitas pelo poder central mais tarde.

Sem mas, mas com humanidade, espírito abrangente, e, também, um valor, que é o Porto que ele sabe que é transversal a esta comunidade. De aplaudir.

Podemos não concordar com os líderes políticos nesta luta, nesta ou naquela decisão. E nenhum de nós tem a informação, e conhecimento para ajuizar. Isso não significa que sejamos seguidistas.

Temos opiniões. Mas como em outras classes porque é que eles não hão-de estar a dar o seu melhor?

Eu acho que estão. E acho que devemos apoiar e reconhecer o esforço, de todos os quadrantes. Será que gostaríamos de ter outros políticos nesta fase? (sem dizer nomes). Não.

Eu acho que devemos agradecer e apoiar aos nossos pela elevação, esforço, capacidade de decisão, e nervos de aço que revelam perante todo o cenário.

Eles fazem parte da sociedade, eles são os nossos eleitos, têm famílias, medos, direitos, dúvidas e erram.

Mas estão lá por nós. Estejamos nós também por eles.